Herança dos lobos

Photo credit: Tambako the Jaguar / Foter / CC BY-ND
Photo credit: Tambako the Jaguar / Foter / CC BY-ND

Por Alexandre Rossi, especialista em comportamento animal. Colaborou Daniela Ramos.

O que faz de certas raças, como rottweiler, dobermann, pastor alemão e mastim, entre outros, verdadeiros vigilantes natos? Diversas especulações têm sido feitas a respeito do temperamento naturalmente agressivo de certos cachorros. É fato que cães exibem comportamentos agressivos diante de dor, medo ou frustração, numa interação competitiva e, principalmente, na tentativa de defender seu território ou uma posição hierárquica ameaçada. Fatores como idade, sexo, ambiente e até alguns hormônios exercem influência.

Quando são treinados para isso e, principalmente, quando a herança genética ajuda, o desempenho deles é ainda mais eficiente, e tais cães tornam-se agressores em potencial. Entretanto, o que faz de certos animais grandes guardiões de sua casa, sua família e seu dono é o fato de apresentarem uma natureza protetora. Ou seja, eles defendem a casa e a família mesmo sem terem sido treinados para tal.

Para tentarmos entender a origem dessa agressividade territorial e protetora tão evidente em alguns cães é preciso rememorar as origens de algumas raças caninas e, principalmente, investigar e compreender melhor como se dá esse comportamento entre os lobos, já que esses são os ancestrais caninos. Os lobos se organizam em alcateias e, normalmente, o lobo que poderíamos chamar de “líder” é responsável pela segurança, guarda e proteção de todo o grupo, além da vigilância do território. Na tentativa de manter o grupo unido, ele exibe comportamentos desafiadores aos intrusos, o que causa ainda mais admiração por parte do outros membros da alcateia. Assim, essa habilidade presente nos cães domésticos pode ter sido herdada de seus ancestrais.

E por que algumas raças são mais agressivas que outras? Embora não possamos generalizar, a maior aptidão de certas raças para a vigilância territorial e proteção teve origem nos antepassados. O rottweiler, por exemplo, foi inicialmente usado como boiadeiro de rebanhos, puxador de carroça e, principalmente, como guarda do Império Romano. Já os tataravôs do fila brasileiro caçavam escravos fugidos. Os antepassados do pit bull tiveram grande participação na luta contra touros em espetáculos semelhantes às touradas. Mais tarde, o palco foi substituído pela arena das rinhas de cães. Assim, o temperamento de cada raça foi sendo selecionado através de diversas gerações, aumentando ou diminuindo determinadas habilidades e potenciais agressores.

Felizmente, essa predisposição genética pode ser, até certo ponto, moldada por treinamento e pelo proprietário. Não se iluda que qualquer cão pode se tornar manso e 100% confiável simplesmente porque você irá dar muito carinho e contratar um bom adestrador. Se você já tem um micro poodle que ataca toda a família e ninguém tem coragem de tirá-lo do sofá, pense duas vezes antes de comprar um filhotinho de rottweiler. Os melhores cães de guarda costumam ser os mais dominantes e os mais destemidos. Portanto, o controle muitas vezes é dificílimo para donos não muito rigorosos e firmes.

Comunicação de intenções pelo cachorro: a perspectiva dos donos

Photo credit: Tambako the Jaguar / Foter / CC BY-ND
Photo credit: Tambako the Jaguar / Foter / CC BY-ND

Por Claudia de Brito Faturí, Alexandre Pongrácz Rossi, César Ades e Daniela Ramos

Com o intuito de saber quais são os sinais através dos quais cães comunicam o que vão fazer aos seus donos, analisamos episódios comunicativos relatados por proprietários de cães. A pesquisa foi realizada com 1134 donos de cães, contatados através de um site e através do qual foram obtidas respostas a um questionário. Pedia-se aos sujeitos que fizessem relatos de episódios, com seu próprio animal, em que fosse clara a comunicação de algo pelo cão ao seu dono.

O presente trabalho tem a ver com uma parte desta pesquisa relativa a 501 episódios em que o cão teria comunicado uma intenção (avisando ou disfarçando algo que iria fazer). A análise do conteúdo destes episódios indicou que se centram em torno das motivações básicas de cães domésticos e de casos em que o animal disfarça algo errado que já fez ou irá fazer; e desvendou, em cada caso uma série de sinais a que os donos atribuem valor de previsão ou comunicação. Os mais freqüentes destes sinais foram: defecar e urinar (anda em círculo, cheira o local), comer (distrai o dono, distrai o outro cão), pegar algo (olha fixo, olha alternado), atacar (rosna, late), chamar atenção do dono (late, olha para o dono), entrar em casa (entra devagar, olha para o dono), sair de casa (pula/arranha a porta, olha para o dono), disfarçar quando vai fazer algo errado (sai devagar, olha para o dono), disfarçar quando fez algo errado (esconde-se, baixa a cabeça).

Os resultados indicam que a interação entre o dono e o cão se baseia na leitura, pelo dono, de sinais preditivos do comportamento do cão que muitas vezes são interpretados como decorrendo de uma intenção do cão comunicar-se com o seu dono ou de disfarçar sua própria intenção. No caso de fazer algo errado, há uma analogia marcante com os relatos anedóticos de enganação em primatas. Estes sinais parecem ser o produto de uma construção que decorre da interação entre o dono e o seu cão. Existem elementos em comum, existe um dicionário geral, mas também incluem elementos que só poderiam ter sido adquiridos de forma particular. É possível que deste conhecimento preditivo do dono se originem práticas que reforcem no cão certos comportamento comunicativos.

Transição entre sinais eliciados e sinais espontâneos

Photo credit: Y0$HlMl / Foter / CC BY
Photo credit: Y0$HlMl / Foter / CC BY

Por Alexandre Rossi, especialista em comportamento animal.

Proprietários de cães acreditam que seus animais são capazes de se comunicar com pessoas (Ades, Rossi & Pinseta, 2000). Sabe-se, contudo, pouco a respeito de como cães usam sinais comunicativos para influenciar o comportamento de seres humanos. Inspirando-nos na descrição de Clark (1978) a respeito de como crianças pequenas adquirem vocabulário passando pela transição entre a comunicação não-intencional para sinais intencionalmente comunicativos, pensamos num procedimento em que uma ação desempenhada pelo ser humano seria associada a um comando executado pelo cão. A hipótese era que no decorrer do treino, o cão passaria a executar o mesmo comando antecipadamente, de forma espontânea, desencadeando a ação do experimentador, criando-se assim um canal de comunicação com o ser humano.

Uma cadela sem raça definida, Sofia, foi nosso sujeito experimental. As ações e comandos consistam de rotinas com papéis claramente definidos para o cão e o experimentador: “pedir para sair”, “ter acesso à casinha” e “jogar a bola”. O papel do experimentador consistia em pedir um dos comandos respectivos a cada rotina (“dar a pata”; “tocar num guizo” e “rodar”) e, em troca da sua execução, atender a necessidade do sujeito, que podia ter sido percebida ou induzida. As rotinas foram filmadas diariamente e 126 episódios foram transcritos temporalmente. Analisou-se o número de antecipações do sujeito experimental ao papel do experimentador. Observou-se um aumento das antecipações do sujeito de forma gradual ao longo das semanas, atingindo 100% em todas as rotinas estudadas. A totalidade das antecipações foram atingidas em 4 semanas para “pedir para sair”, 3 semanas para “ter acesso a casinha” e 6 semanas para “jogar a bola”.

Esses sinais aprendidos pelo cão começaram a ser utilizados espontaneamente em contextos adequados, mesmo fora das rotinas. A antecipação apresentada pelo cão demonstra uma capacidade de utilizar comportamentos arbitrários aprendidos para comunicar desejos e vontades a seres humanos de forma análoga ao que ocorre com crianças e primatas. Esse conhecimento poderá ser utilizado para criar sistemas de sinais comunicativos que permitam uma comunicação mais clara e precisa entre cães e seres humanos, além de podermos substituir comportamentos comunicativos indesejáveis como arranhar a porta ou latir demasiadamente quando deseja algo.

Reconhecimento de expressões faciais caninas versus humanas

Photo credit: LeahLikesLemon / Foter / CC BY
Photo credit: LeahLikesLemon / Foter / CC BY

Por Alexandre Rossi, especialista em comportamento animal. 

Acidentes por mordidas de cães são um problema sério e comum, sendo as crianças o principal alvo desses acidentes. Diversos são os motivos que tornam as crianças mais susceptíveis aos ataques de cães como agitação, produção de sons de alta freqüência, o tamanho e o próprio fato de olharem fixamente para a face do cão, atitude que pode desencadear agressividade por medo ou por dominância. O presente estudo teve por objetivo constatar a reação de crianças diante de fotos de cães com expressão de agressividade e passividade e comparar com a reação diante de fotos humanas. Buscou-se abordar susceptibilidade de crianças aos ataques caninos segundo a sua capacidade de reconhecimento de expressões faciais. Estudos sugerem que o reconhecimento de expressões faciais já ocorre em bebês recém-nascidos.

Além disso, expressões faciais exibidas pelos pais e indicativas de prazer, desprazer, perigo e outras emoções podem ser úteis para o aprendizado sobre o meio em que a criança vive. Entretanto, ainda que as crianças na faixa de 1 a 3 anos de idade demonstrem algum entendimento de expressões faciais ele ainda é bastante rudimentar. A observação foi realizada com 10 crianças entre 2 e 3 anos de idade. O aparato experimental consistia de 2 placas (92cm x 42cm) com um orifício no centro e uma câmera filmadora. Em uma das placas havia duas figuras de uma mesma pessoa, sendo uma exibindo expressão neutra e a outra sorrindo. Na outra havia duas figuras de um mesmo cachorro, sendo uma exibindo expressão neutra e outra com os dentes aparentes (expressão de raiva). As placas foram apresentadas para cada criança por um período de 10 segundos e foi registrado, em fita de vídeo, a direção de seus olhares.

Os resultados mostram quem não houve preferência em relação às fotos humanas. Já para as fotos de cachorro, houve uma clara preferência pela foto onde os dentes estavam expostos. Tal fato pode ser comparado à preferência por sorrisos em experimentos com faces humanas, além de consistir um fator de risco para acidentes entre cães e crianças. Isto fortalece a hipótese de que crianças desta faixa etária poderiam confundir a sinalização de ataque expressa pelos animais, com o sorriso humano, levando a uma aproximação da criança ao animal, ao invés de evitação.

Alexandre Rossi realiza palestra comportamental em São Paulo

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Neste sábado, 13 de setembro, às 14h, o especialista em comportamento animal, Alexandre Rossi, realizará uma palestra sobre como melhorar a convivência com os pets que moram em apartamento no empreendimento Easy Cidade Universitária da Gafisa, em São Paulo. 

Além de dar dicas aos donos, o especialista participará de uma sessão de fotos. Sua mascote e fiel escudeira, Estopinha, também estará presente ao evento.

Para participar, é preciso fazer a inscrição até às 18h de hoje, 12 de setembro, pelo telefone (11) 3034-4574.

Faça sua inscrição e participe. O evento é gratuito! 

Mais informações em Agenda. 

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