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É possível adestrar um gato?

Postado por Cão Cidadão em 04/abr/2017 -

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Por Juliana Sant’Ana, franqueada da Cão Cidadão.

Irascíveis, associais e incontroláveis. É assim que muitas pessoas descrevem os gatos domésticos, mas até que ponto isso é mesmo verdade? Será que é possível adestrar um gato? Sabemos que o temperamento de cada animal é moldado principalmente de acordo com suas experiências de vida, entretanto a ideia de que gato é um animal de vida livre, que não cria vínculos com o ser humano, ainda prevalece, reforçando o mito de que eles não são animais treináveis. Esse desentendimento com relação aos felinos pode ser, em parte, devido à falta de conhecimento sobre as preferências da espécie. Então, quais seriam os estímulos mais motivadores para os gatos?

Os cientistas respondem

Um recente estudo da Universidade do Estado do Oregon (Oregon State University), que também foi divulgado por alguns meios de comunicação na última semana, avaliou a preferência dos gatos domésticos e revelou que não apenas os gatos criam vínculos com humanos como também preferem essa interação social em vez de alguma comida. Para chegar a essa conclusão, os cientistas apresentaram a gatos adultos, provenientes de abrigos e de ambientes domésticos, estímulos diferentes para cada uma destas quatro categorias: interação social com um humano, alimento, brinquedo e estímulo olfativo.

Os testes

Para controlar o interesse de cada indivíduo, os gatos foram isolados do contato com humanos e não receberam qualquer alimento 2 horas e meia antes do teste. Além disso, cada animal permaneceu em seu próprio ambiente: gatos de abrigo foram testados em uma sala dentro do abrigo e os domiciliados, numa sala na casa do tutor.
No início, foram apresentados aos animais três estímulos diferentes em cada uma das quatro categorias:

1. Interação social com um humano – o próprio tutor ou o experimentador, no caso dos gatos de abrigo, (1) conversava com o gato; (2) fazia carinho nele;  e posteriormente (3) estimulava-o com um brinquedo com penas;

2. Alimento – os gatos tiveram acesso simultâneo a porções de: (1) frango, (2) atum e (3) petisco com sabor de frango;

3. Estímulo olfativo – os cientistas disponibilizaram simultaneamente panos de algodão com odores (1) de gerbo, uma presa natural dos felinos; (2) de catnip, a famosa erva do gato; e (3) de um gato desconhecido;

4. Brinquedo – os gatos tiveram acesso simultâneo a: (1) um brinquedo que se movia sozinho, (2) um ratinho e (3) um brinquedo com penas.

Ao final, para avaliar a preferência dos animais, os pesquisadores apresentaram simultaneamente para cada gato os quatro estímulos que haviam sido mais atrativos no teste inicial, sendo um de cada categoria.

Quais foram os resultados?

Não houve diferença significativa entre os gatos de abrigo e os domiciliados. Na comparação entre os estímulos da mesma categoria, os animais preferiram: a interação social por brincadeira, o atum, o brinquedo que se movia sozinho e o odor de erva do gato (catnip). Na comparação entre os estímulos mais atrativos de cada categoria, 50% dos gatos testados preferiram a interação social com um humano, 37% preferiram o alimento, 11%, o brinquedo e 2%, o estímulo olfativo. Entretanto, em termos estatísticos, os cientistas concluíram que não houve diferença significativa entre a preferência dos animais pela interação social e pelo alimento.

Isso significa dizer que…
A interação social com um humano foi, no geral, o estímulo preferido pela maioria dos animais, deixando a escolha pelo alimento em segundo lugar. Entretanto, é importante ressaltar que essa sociabilidade dos gatos é também influenciada por uma combinação de fatores que incluem predisposições genéticas e experiências de vida. Dessa forma, é bem provável que alguns gatos tenham mais preferência por interação social que outros.

O estudo também nos traz informações relevantes sobre os estímulos que podem ser utilizados para enriquecer o ambiente dos felinos, como os brinquedos que se movem sozinhos e a própria erva do gato (catnip). Além disso, mesmo considerando que os animais avaliados não tiveram acesso a comida 2 horas e meia antes dos testes, devemos lembrar que muitos gatos domiciliados ou de abrigos têm alimento sempre à disposição. Isso talvez tenha influenciado o fato de eles terem escolhido a interação social em vez do alimento?

Em suma

A descoberta dessa preferência entre os gatos nos revela que tanto a interação social quanto o alimento podem funcionar como reforçadores, favorecendo a modificação comportamental e os treinamentos cognitivos, ou seja, os gatos são animais treináveis, basta apenas criarmos uma motivação para eles, selecionando estímulos que sejam mais atrativos como recompensas. Os resultados apresentados pelo estudo são apenas um ponto de partida.

Referência

SHREVE, Kristyn R. Vitale; MEHRKAM, Lindsay R.; UDELL, Monique AR. Social interaction, food, scent or toys? A formal assessment of domestic pet and shelter cat (Felis silvestris catus) preferences. Behavioural Processes, 2017.